Prioridades em Pesquisa e Saberes Tradicionais são destaques do segundo dia do 23º SENPE e 4º SINPE

  • 9 de julho de 2025
  • Livia

O auditório da reitoria ficou cheio de pessoas interessadas em saber quais são as prioridades da CAPES

O auditório da reitoria ficou lotado para escutar a coordenadora da Área de Enfermagem da CAPES, professora da UFC Ana Karina Bezerra Pinheiro no painel sobre Agenda Nacional de Prioridades em Pesquisa e a pesquisa em enfermagem. Ana Karina apontou que a CAPES está fortalecendo o uso dos 20 Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis da Organização das Nações Unidas (ODS) como indicadores importantes para identificar os impactos das produções científicas brasileiras na sociedade.

Dessa perspectiva, a CAPES identificou que o Brasil se apresenta como um grande produtor de conhecimento que atende aos ODS, mas que, entre os 20 objetivos, ainda há alguns em que nosso país ainda não produz tanto quanto seria importante para o cumprimento das metas definidas pelos ODS.

A coordenadora indicou para a área de enfermagem, por exemplo, o ODS 6 (Água potável e saneamento), o ODS 7 (Energia acessível e limpa) e ODS 8 (Trabalho decente e crescimento econômico), temas que estão diretamente ligados à promoção da saúde da população e das(os) trabalhadoras(es). Ana Karina também apontou que o sul global apresenta convergência para a pesquisa em três ODS adicionais que são o ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial), o ODS 19 (Arte, cultura e comunicação) e ODS 20 (Direitos dos Povos Originários e Comunidades Tradicionais).

“Estão sendo planejadas e implementadas ferramentas para mapear temas estratégicos e se a produção científica das instituições estão alinhadas às demandas globais representadas pelos ODS. São ferramentas como o software que a Unicamp está utilizando em seu repositório para que seja possível filtrar as relações das pesquisas com os ODS. Outra ferramenta será um software para que, na plataforma sucupira, seja possível relacionar os temas aos ODS”, explicou a coordenadora.

Parteira indígena e raizeiras compartilham saberes com a Enfermagem

Noemi Xerente explica as práticas indígenas de seu povo para cuidar do corpo e da alimentação das mulheres antes e depois do parto

 

“O conhecimento ancestral do meu povo precisa ser valorizado e respeitado”, afirmou a enfermeira Janaína Sikwatkadi Calixto Xerente, que afirma fazer questão de voltar para sua aldeia sempre que a rotina na capital tocantinese a deixa muito sobrecarregada. Janaína acompanhou a parteira e cacique da aldeia Boa Vista, da etnia Xerente, Noemi da Mata de Brito Xerente, para a roda de conversa “Saberes que vem dos territórios: confluências dialógicas”, e também reforçou a importância de reconhecer os saberes dos povos indígenas.

Para estudantes e docentes encantados, Noemi explicou que seu povo respeita o tempo e a privacidade das mulheres no parto, e prestam bastante atenção à alimentação das gestantes, seguindo conhecimentos ancestrais sobre o que pode e o que não pode ser ingerido durante a gravidez. “Nós sabemos que quando a mulher está em trabalho de parto ela precisa ter o momento dela, não precisa ficar em tantas atividades, pulando em bolas ou andando de lá para cá”, exemplificou a parteira.

As quilombolas Tia Dedé e Felisberta Pereira da Silva também compartilharam suas histórias como conhecedoras dos efeitos das ervas medicinais para a saúde. As duas contam que os aprendizados foram passados para elas de forma oral, sempre baseados na experiência de pessoas mais velhas que, por sua vez, também aprenderam com seus antepassados. Quantidades, misturas, posologias, tudo está na memória de pessoas que curam doenças e feridas de seus povos há muitos, muitos anos, usando os elementos que a natureza nos oferece. “Mas o desmatamento está acabando com muitas das nossas ervas”, alerta Tia Dedé. “Muitas vezes fui nos matos pegar as plantas que eu precisava, e já não tinha mais nada lá”, lamentou.

Felisberta da Silva levou ervas para compartilhar com as(os) participantes da roda de conversa

 

Sistematizar e compartilhar esse conhecimento é fundamental para abrir caminhos para pesquisas e para ampliar o reconhecimento dos saberes tradicionais em nossa sociedade. “O preconceito contra práticas e medicinas utilizadas por povos indígenas e tradicionais ainda é grande entre profissionais formados pela ciência urbanizada que não respeita mais o tempo do corpo e os poderes das plantas”, afirma Tia Dedé.

Felisberta da Silva escreveu seus conhecimentos no livro A Mata que Cura, que pode ser encontrado neste link: https://ninhocultural.com.br/a-mata-que-cura-pdf

Ela também foi personagem do documentário de mesmo nome, que pode ser assistido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-CR-Ff-ZXok

“Foi muito bom participar desse evento, conversar com enfermeiras que podem se beneficiar muito de conhecer nossas práticas, que funcionam há centenas de anos”, completa Noemi Xerente. Para a coordenadora da Comissão Científica do 23º SENPE, Thayza Miranda, um dos grandes diferenciais do seminário é o destaque à importância das práticas dos povos originários e tradicionais para alcançar a saúde de maneira sustentável e em respeito ao conhecimento onde quer que ele se encontre.