Demografia da Enfermagem revela avanços e desigualdades raciais entre enfermeiros(as), técnicos(as) e auxiliares de enfermagem no Brasil

No 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data dedicada à reflexão sobre a luta histórica da população negra contra o racismo no Brasil, destacamos análises do livro Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde em novembro de 2025, que lançam luz sobre a composição racial da Enfermagem e as desigualdades ainda presentes na profissão. O estudo mostra que, embora a Enfermagem esteja se tornando mais diversa racialmente, as barreiras estruturais que historicamente atravessam a sociedade brasileira continuam a moldar oportunidades, rendimentos e trajetórias profissionais.
O capítulo 4 – Demografia da Enfermagem: Indicadores Demográficos Segundo Dados da Relação Anual de Informações Sociais (2010-2021)” aponta que Há crescimento significativo da presença negra na Enfermagem, acompanhando movimentos sociais mais amplos de ampliação do acesso ao ensino e ao trabalho formal, mas que esse avanço não elimina as desigualdades salariais e de acesso a postos de maior qualificação, nem garante equidade na progressão profissional.
Os(as) pesquisadores(as) também apontam que a subnotificação de raça/cor segue como um desafio crítico, dificultando o monitoramento das desigualdades e a formulação de políticas e que o aumento da presença de profissionais negras(os) pode indicar tanto maior inclusão quanto melhor preenchimento da informação racial, o que exige análises mais profundas. O enfrentamento do racismo estrutural na Enfermagem depende de políticas públicas sensíveis às interseccionalidades entre raça, gênero, classe e território.
“A ABEn reafirma seu compromisso com a defesa intransigente da equidade racial na Enfermagem conclama escolas, gestores, conselhos profissionais, trabalhadores e movimentos sociais a se unirem no compromisso de enfrentar as desigualdades raciais e construir uma Enfermagem que reflita, represente e valorize toda a diversidade do povo brasileiro”, afirma a presidenta da ABEn, Jacinta Sena.
Crescimento expressivo da presença negra na Enfermagem, mesmo com subnotificação de raça/cor
A pesquisa analisou mais de 12,9 milhões de registros da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) ao longo de uma década e revela um cenário de maior diversidade racial, com crescimento expressivo da presença de profissionais negros, mas também evidencia que as desigualdades estruturais permanecem influenciando salários, oportunidades e acesso a cargos de maior qualificação.
O estudo mostra que houve um aumento significativo do número de profissionais pretos e pardos. Entre enfermeiros, a participação desse grupo praticamente dobrou, passando de 26,3% em 2010 para 43,7% em 2021. Entre técnicos e técnicas de enfermagem, verificou-se um crescimento contínuo da representatividade negra em todas as regiões.
O movimento indica uma mudança gradual na composição da categoria, embora não elimine as disparidades estruturais.
O estudo reforça que a subnotificação de raça/cor continua sendo um obstáculo importante: 39,4% dos registros de enfermeiros e 27,1% dos registros de técnicos e técnicas apresentavam essa informação como “ignorada”. A lacuna dificulta análises precisas e aponta para a necessidade de maior compromisso dos empregadores no preenchimento desses dados, fundamentais para monitorar desigualdades e orientar políticas de equidade.
Desigualdades persistem: pessoas brancas seguem com maiores salários
Apesar da ampliação da presença negra, as desigualdades salariais persistem. Estudos citados no capítulo mostram que profissionais brancos recebem, em média:
- 25% a mais que pretos e pardos entre aqueles com nível superior;
- 11% a mais entre profissionais de nível técnico.
A hierarquia de rendimentos também apresenta forte recorte racial e de gênero: homens brancos ocupam o topo, seguidos por mulheres brancas, homens negros e, por último, mulheres negras, grupo mais vulnerável às múltiplas formas de opressão.
As dinâmicas raciais variam entre as regiões do país, refletindo desigualdades históricas no acesso à formação e na distribuição de oportunidades. O estudo aponta que regiões com menor oferta de educação superior e menor capacidade de atração de profissionais qualificados tendem a registrar maior presença negra nas categorias técnicas, mas menor ascensão de profissionais negras(os) para posições de nível superior.
Por equidade racial na Enfermagem
Diante desse cenário, a ABEn reafirma seu compromisso com a defesa intransigente da equidade racial na Enfermagem e destaca a importância de ampliar o acesso de pessoas negras à formação técnica, superior e pós-graduada, por meio do fortalecimento de políticas públicas, programas de apoio, permanência e ações afirmativas que promovam diversidade racial.
A entidade também reforça a necessidade de estimular ações antirracistas no trabalho em saúde, incentivando debates, formações, recomendações técnicas e diretrizes éticas que orientem escolas, serviços e instituições públicas a adotar práticas concretas de enfrentamento ao racismo institucional.
Além disso, a ABEn defende o preenchimento adequado da variável raça/cor nos cadastros administrativos, condição essencial para garantir dados públicos fidedignos e orientar políticas de equidade; o monitoramento contínuo das desigualdades raciais no mercado de trabalho, com acompanhamento dos indicadores, difusão de estudos e estímulo à produção científica sobre interseccionalidades; e a valorização da história e do protagonismo da Enfermagem negra, reconhecendo a contribuição de profissionais negras e negros e promovendo iniciativas de memória, visibilidade e fortalecimento de lideranças.


