Encerramento do 75º CBEn destaca compromisso com justiça social, interseccionalidade e o protagonismo da Enfermagem brasileira

O último dia do 75º Congresso Brasileiro de Enfermagem foi marcado por celebração, reconhecimento e, sobretudo, pela reafirmação da Enfermagem como força política, histórica e social comprometida com os direitos humanos e com a construção de um país mais justo. A manhã de 26 de novembro abriu com a mesa-redonda “Interseccionalidade, antirracismo e direitos humanos: potências e desafios da Enfermagem como prática social”, que reuniu o professor Eduardo Sodré de Souza (UNICAMP) e a professora Climene Laura de Camargo (UFBA), sob mediação de Gisele Cristina Tertuliano (UFRGS). O debate inaugurou o dia com profundidade e densidade política, conectando passado, presente e futuro da profissão.
Na sequência, o congresso viveu momentos de celebração científica com a entrega das Menções Honrosas dos prêmios do CBEn, do Seminário Nacional de Diretrizes de Enfermagem na Atenção Básica (SENABS) e do Colóquio Latino-Americano de História da Enfermagem (CLAHEN), reconhecendo pesquisas que reafirmam a vitalidade e o compromisso ético da produção acadêmica da categoria.
Em seguida, houve o anúncio das novas tituladas e titulados especialistas em História da Enfermagem, seguido pelo lançamento oficial do 76º CBEn, da 20ª edição do SENADEn e do 17º SINADEn, que serão realizados em 2026. O ritual marcou a continuidade de um projeto coletivo de resistência, memória e fortalecimento da profissão.
Outro momento importante do encerramento foi a Leitura da Carta do 75º CBEn, conduzida pela diretora de Educação da ABEn Nacional, Célia Rozendo. O documento, acompanhado coletivamente pelo público, sintetizou os compromissos éticos e políticos reafirmados ao longo dos cinco dias de congressos — reafirmando a Enfermagem como defesa intransigente do SUS, da democracia, da equidade e da vida.
As lideranças da ABEn realizaram sua saudação final antes da Assembleia Nacional de Delegados e da posse da nova Diretoria Nacional. Encerrando a programação, o professor, enfermeiro, poeta e jornalista Dilmar Xavier da Paixão brindou o público com uma apresentação artística inspiradora.
Enfermagem Negra: ancestralidade, resistência e protagonismo

Com sensibilidade e rigor histórico, a professora Climene Laura apresentou um panorama da Enfermagem Negra no Brasil, mostrando como mulheres negras foram — e continuam sendo — fundamentais para a construção do cuidado no país. Desde o período colonial, parteiras, amas de leite, babás, benzedeiras e curandeiras sustentaram, com saberes ancestrais, a base do trabalho em saúde.
Climene ressaltou, porém, a profunda contradição histórica: enquanto sustentavam o cuidado, mulheres negras foram sistematicamente excluídas da formação oficial e da profissionalização, que durante décadas impôs critérios de classe e raça. Mesmo com avanços, essa exclusão segue evidente em espaços institucionais onde mulheres negras quase não aparecem como docentes, pesquisadoras ou gestoras.
A palestrante apresentou dados que reafirmam essa realidade: a Enfermagem é composta por 53% de profissionais negras, mas a desigualdade estrutural ainda limita seus espaços de ascensão. Ela também resgatou figuras de referência — como Mary Jane Seacole, Mãe Stella de Oxóssi, Ivone Lara e Maria José Barroso — mostrando que a ancestralidade negra é parte indissociável da história da profissão.
Climene concluiu sua fala com versos que evocam luta, esperança e legado, afirmando que a Enfermagem brasileira precisa reconhecer e honrar o protagonismo de sua base negra para construir um futuro verdadeiramente plural e democrático.
Interseccionalidade como lente essencial para o cuidado e para a política
A apresentação do professor Eduardo Sodré destacou que a interseccionalidade, longe de ser um tema periférico, é a lente analítica indispensável para compreender a saúde em um país atravessado por desigualdades estruturais. Ao tratar dos desafios políticos, ambientais e sanitários, Sodré reafirmou que a Enfermagem ocupa posição estratégica na defesa da equidade, sobretudo na Atenção Primária, onde se materializa a prática social da profissão.
Ele destacou que as mulheres negras formam a base da força de trabalho da Enfermagem brasileira, enfrentando menores salários, piores condições e múltiplas camadas de violência e desumanização. Essa realidade, segundo ele, só pode ser enfrentada quando raça, classe, gênero e território são compreendidos como dimensões indissociáveis do cuidado.

O professor também chamou atenção para as lacunas ainda presentes na formação: currículos “daltônicos”, ausência de conteúdos sobre saúde da população negra e indígena, apagamento de pioneiras negras e insuficiência de ferramentas para enfrentar o racismo institucional. Para ele, a transformação precisa ser estrutural — nas DCNs, nos Projetos Políticos Pedagógicos e nos programas de educação permanente.
Sodré encerrou sua fala com uma convocação: a Enfermagem deve disputar espaços de decisão, garantindo governança inclusiva e representação de mulheres negras em posições de liderança para redesenhar políticas e práticas de cuidado.
Após as apresentações dos palestrantes, a mesa abriu espaço para comentários e manifestações da audiência — momento em que a emoção tomou o auditório. Entre as participações, destacou-se a fala do jovem estudante Antônio Neto, da Universidade Federal do Amapá (campus Binacional), que leu um poema de sua autoria inspirado pela mesa e pela temática da interseccionalidade negra.
O poema, carregado de identidade, orgulho e afirmação, traduziu de forma sensível o impacto das falas de Sodré e Climene sobre a nova geração de profissionais da Enfermagem:

O estudante Antonio Neto (Unifap/Campus Binacional)
Verso Interseccionalidade Negra
“A representatividade na Interseccionalidade reflete a alma dessas duas realidades
Aos 70 anos ou na metade dele, tão atualizada com Emicida e tão potencializado com Lineker
A minha pele sempre será meu maior orgulho, e o meu Cuidar sempre será meu futuro
Obrigado por tocar nossa alma e motivar nosso futuro”
— Antônio Neto, Unifap-AP
A leitura arrancou aplausos e emocionou o público, simbolizando o encontro entre a força histórica da Enfermagem Negra e o protagonismo da juventude que chega disposta a transformar a profissão.
Homenagens, reconhecimentos e titulações: celebrando trajetórias e fortalecendo a memória da Enfermagem
Encerrada a mesa-redonda e seus desdobramentos emocionais, o 75º CBEn seguiu com um dos momentos mais aguardados da manhã: o reconhecimento das trajetórias e produções que constroem e preservam a história da Enfermagem brasileira.
Além das Menções Honrosas — que serão incorporadas ao texto assim que divulgadas — o evento celebrou as novas tituladas e titulados como Enfermeiros Especialistas em História da Enfermagem, reconhecimento concedido pelo Departamento Científico de História.
Foram homenageados:
- Ana Maria Ribeiro dos Santos – Professora Associada IV da UFPI, pós-doutora pela Universidade de Évora, líder do GEECEM e referência na pesquisa sobre envelhecimento e emergência.
- Deybson Borba de Almeida – Professor Titular da UEFS, Editor-chefe da HERE, pesquisador reconhecido internacionalmente e liderança na área de História da Enfermagem.
- Maria Lígia dos Reis Bellaguarda – Professora da UFSC, pesquisadora em epistemologia e história, com pós-doutorado em Coimbra e liderança no GEHCES.
A titulação reafirma a importância estratégica da preservação da memória profissional, reconhecendo pesquisadoras e pesquisadores que dedicam sua vida acadêmica a registrar, interpretar e dar visibilidade à história da Enfermagem — um campo fundamental para compreender desafios contemporâneos e orientar caminhos futuros.
Carta de Porto Alegre aponta desafios urgentes e caminhos possíveis para fortalecer a Enfermagem brasileira
A leitura da Carta de Porto Alegre sintetizou as reflexões construídas ao longo de quatro dias de debates intensos sobre formação, trabalho, políticas públicas, história da profissão e os desafios contemporâneos do SUS. O documento, que ainda será divulgado em sua versão final, foi acompanhado coletivamente pelo público, reafirmou a defesa da saúde como direito humano e destacou a centralidade da Enfermagem na consolidação de uma Atenção Primária forte, territorializada, integral e orientada pela equidade.
A Carta enfatiza que o país vive um contexto de reconstrução de políticas públicas ainda ameaçado por retrocessos e perdas de direitos, e convoca a Enfermagem a fortalecer sua participação social, sua atuação política e sua presença nos espaços de controle democrático do SUS. Entre os eixos centrais, destacou-se a urgência de enfrentar problemas estruturais como precarização do trabalho, vínculos frágeis, jornadas exaustivas, insuficiência salarial e subdimensionamento de equipes — elementos que comprometem tanto as condições de trabalho quanto o cuidado seguro oferecido à população.
Outro ponto de destaque foi a crítica às lacunas da formação em saúde, marcada pelo distanciamento entre academia e serviços, pela insuficiência de políticas indutoras e pela necessidade de fortalecer a educação permanente, a formação interprofissional e programas de residência — especialmente na Estratégia Saúde da Família, reafirmada como modelo prioritário de APS.
A Carta também apresenta recomendações aos gestores municipais, estaduais e federais, entre elas:
– criação de uma Política Nacional de Carreira Única no SUS;
– revisão da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) com participação de profissionais e usuários;
– financiamento adequado e estável para uma APS ampliada e de base territorial;
– fortalecimento dos programas de residência em saúde da família;
– ampliação dos espaços democráticos de participação e controle social;
– construção de protocolos que assegurem autonomia, respaldo legal e qualificação da prática profissional.
Encerrando o documento, a Carta convoca trabalhadoras e trabalhadores da Enfermagem a afirmar uma atuação ética, crítica, socialmente comprometida e alinhada à defesa do SUS como política pública fundamental. O texto reafirma que a Enfermagem, como maior força de trabalho em saúde do país, é protagonista na construção de um sistema universal, humano e democrático — e que sua potência como prática social está intrinsecamente ligada à luta por justiça social, dignidade e direitos.
Posse da Nova Diretoria e apresentação cultural encerraram o 75º CBEn

A cerimônia de posse da nova Diretoria da ABEn para a gestão 2025-2028 ocorreu durante o encerramento da 8ª Assembleia Nacional de Delegados Extraordinária, em formato híbrido, reunindo representantes presentes em Porto Alegre e também conectados on-line. Foram empossadas: Jacinta de Fátima Sena da Silva (Presidenta); Sonia Alves (Vice-presidenta); Rosalina Aratani Sudo (Secretária-Geral); Aline Macêdo de Queiroz (Diretoria Financeira); Célia Alves Rozendo (Diretoria de Educação); Lívia Angeli Silva (Diretoria de Desenvolvimento do Trabalho de Enfermagem); Kênia Lara da Silva (Diretoria de Pesquisa); Maria Helena Palucci Marziale (Diretoria de Publicação); e Sandra Rejane Soares Ferreira (Diretoria de Comunicação).
Também tomou posse o Conselho Fiscal composto por Olga Peterlini, Silvia Cristina Viana Silva Lima, Luciana Tavares Barbosa (titulares), e Andréia d’ Santana Oliveira, Nair Chase da Silva e Inara Mariela da Silva Cavalcante (suplentes).
Em seu discurso de posse, a presidente Jacinta Sena destacou a necessidade de manter a ABEn unida e mobilizada frente aos retrocessos que afetam o trabalho, a saúde e a vida democrática do país. Relembrou a trajetória quase centenária da Associação e ressaltou a agenda estratégica para o próximo triênio, fortemente orientada pela defesa da soberania, pelo fortalecimento do controle social e pela ampliação da participação política da enfermagem. O tom do pronunciamento foi de convocação, mas também de acolhimento, reconhecendo o papel das trabalhadoras e trabalhadores da Rede ABEn, das seções estaduais, dos coletivos e dos movimentos estudantis.
Ao se dirigir às pessoas presentes, presencialmente e on-line, Jacinta encerrou sua fala evocando a literatura como inspiração para o novo ciclo que se inicia, trazendo as palavras de Carlos Drummond de Andrade: “Gostaria de lhe desejar tantas coisas, mas nada seria suficiente… Então, desejo apenas que tenham muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, ao rumo de sua felicidade.”

A cerimônia foi finalizada pela leitura de um poema pelo professor Dilmar Paixão, integrante do Projeto Campeiro, acompanhado pelo violão de Diego Constante.
NOSSO RECADO FINAL
Voltamos p´ra agradecer todo o convívio, pessoal.
O Congresso chega ao final, malas prontas, boa viagem.
Revigorada, a Enfermagem, resta-nos agradecer.
Conjugamos conviver, com estudos e aprendizados.
Dos saberes partilhados, as lutas e as bandeiras,
companheiros, companheiras, e mais do que tudo colegas,
não podemos andar às cegas, sem direitos conquistados.
Revigorados, voltamos aos lares e aos trabalhos.
E vamos criando atalhos, de convívios e exemplos.
Buscando o conhecimento, com vontade de aprender.
A Enfermagem a crescer, porque evolui lutando,
estudando, trabalhando, se encontrando nos eventos.
E, misturando talentos, a Enfermagem agora,
tem força e se revigora e vai à frente avançando.
Ainda temos na memória, os desafios da pandemia.
Melhor se diz Sindemia, pelos problemas sociais.
Os desafios, tão reais, seguem na atualidade:
A enorme mortalidade que tombou muitos colegas.
Ciência, a gente não nega, pois são grandes consequências.
E enquanto, houver divergências, fica frágil, a batalha.
É como aceitar a bandalha, se a gente perde unidade.
Mais um Congresso se encerra, a ABEN rumo aos 100 anos.
Nós vamos cheios de planos, ideias e atividades…
Nas diversas realidades, a Enfermagem é presente.
Há um profissional em cada frente, com disposição p´ra ajudar.
O juramento por cuidar, se assume na formatura.
E cuidamos da criatura, porque assim nos propusemos.
A profissão que escolhemos tem que nos tornar contentes.
E para ficarmos felizes, se precisa um pouco mais.
Reconhecimentos reais, respeito à nossa jornada.
Aos plantões das madrugadas, nos hospitais, e unidades,
de atender comunidades com qualidade e coragem.
Que seja nossa mensagem, um apontar de horizontes.
Que se busquem novas fontes, de salários p´ra categoria.
Com poder e garantias, valorizando a Enfermagem.


