ABEn 100 anos: um século organizando, regulamentando e fortalecendo a Enfermagem brasileira

  • 6 de fevereiro de 2026
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Celebrar o centenário da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) é revisitar a própria história da Enfermagem enquanto profissão no Brasil. Fundada em 12 de maio de 1926, a ABEn nasce do protagonismo de enfermeiras diplomadas que compreenderam, desde cedo, que o desenvolvimento da Enfermagem exigia mais do que formação/educação técnica: demandava organização política, produção científica, identidade profissional e compromisso social. Ao longo de cem anos, a ABEn consolidou-se como a mais antiga entidade representativa da categoria e como um dos pilares da estruturação da Enfermagem brasileira.

Organização e regulamentação da profissão

A criação da então Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (ANED), por iniciativa das primeiras egressas da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública — atual Escola de Enfermagem Anna Nery — marcou um divisor de águas. Inspiradas por concepções internacionais que articulavam escola, associação e revista científica como bases de uma profissão sólida, essas enfermeiras assumiram o desafio de organizar coletivamente a categoria em um país marcado por profundas desigualdades sociais e sanitárias. Desde sua origem, a ABEn assumiu caráter científico, cultural e político, orientando sua atuação pela defesa da Enfermagem profissional e pela qualificação do cuidado em saúde.

Um dos legados mais estruturantes da ABEn está na luta pela regulamentação do exercício profissional. Ainda na década de 1930, a entidade teve papel decisivo na articulação que resultou no Decreto nº 20.109/1931, primeira legislação a estabelecer critérios para o exercício da Enfermagem no país. Esse marco garantiu reconhecimento legal à profissão, diferenciando-a de práticas empíricas e afirmando a centralidade da formação/educação qualificada. Mais adiante, a ABEn protagonizou intensos debates e incidências políticas que culminaram na Lei nº 2.604/1955, responsável por regulamentar a Enfermagem por mais de três décadas, e, posteriormente, na Lei nº 7.498/1986, que atualizou esse marco regulatório em consonância com as transformações do sistema de saúde brasileiro.

Priorização da formação/educação e produção científica

Paralelamente à regulamentação profissional, a ABEn foi fundamental na organização científica da Enfermagem, criando espaços permanentes de produção, difusão e intercâmbio de conhecimentos. Em 1932, lançou os Annaes de Enfermagem, publicação que mais tarde se tornaria a Revista Brasileira de Enfermagem (REBEn), hoje reconhecida como um dos mais importantes periódicos científicos da área. A criação da REBEn consolidou um canal estratégico para a socialização de pesquisas, reflexões críticas e avanços técnico-científicos, contribuindo decisivamente para a construção de um pensamento próprio da Enfermagem brasileira.

 

No campo dos eventos científicos, a ABEn organizou, em 1947, o 1º Congresso Nacional de Enfermagem, atual Congresso Brasileiro de Enfermagem (CBEn). Realizado de forma ininterrupta ao longo de décadas, o CBEn tornou-se um espaço privilegiado de debate científico, político e cultural, conectando a Enfermagem aos grandes temas da sociedade brasileira. Ao lado do CBEn, a entidade estruturou agendas estratégicas como o Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem (SENPE), o Seminário Nacional de Diretrizes para a Educação em Enfermagem (SENADEn) e a Semana Brasileira de Enfermagem, reconhecida como patrimônio simbólico e político da categoria.

Luta pela regulamentação e pela saúde pública

Outro marco incontornável da trajetória centenária da ABEn é sua atuação na criação e consolidação do sistema de Conselhos de Enfermagem. Desde a década de 1940, a entidade defendeu a necessidade de um órgão próprio para fiscalizar o exercício profissional, proteger a sociedade e assegurar o cumprimento de princípios éticos. Foram quase trinta anos de mobilização, elaboração de anteprojetos e articulação com diferentes segmentos da categoria até a sanção da Lei nº 5.905/1973, que instituiu o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Enfermagem. Essa conquista reafirma a ABEn como entidade precursora e articuladora das principais estruturas organizativas da Enfermagem no Brasil.

Ao longo de sua história, a ABEn também se destacou por seu compromisso com a saúde pública, a democracia e os direitos sociais. Participou ativamente do Movimento da Reforma Sanitária, da construção do Sistema Único de Saúde (SUS) e da defesa de um modelo de atenção universal, público e equânime. Em diferentes contextos históricos, inclusive nos períodos de autoritarismo, a entidade manteve-se como espaço de debate crítico, resistência e afirmação ética da Enfermagem como prática social comprometida com a vida.

Chegar aos cem anos reafirma a atualidade da ABEn. Sua trajetória revela que a consolidação da Enfermagem brasileira está profundamente vinculada à ação coletiva, à produção de conhecimento, à organização política e à defesa intransigente do cuidado como direito. O centenário não é apenas uma celebração do passado, mas a afirmação de um projeto de futuro: uma Enfermagem forte, unida, socialmente comprometida e protagonista na construção de um país mais justo e saudável.

A ABEn no século XXI: defesa da vida, do trabalho e da memória da Enfermagem

Nos desafios contemporâneos, a atuação da Associação Brasileira de Enfermagem reafirma a coerência histórica de sua trajetória. Durante a pandemia de Covid-19, a ABEn esteve na linha de frente da defesa da vida, da ciência e do Sistema Único de Saúde, posicionando-se publicamente a favor da vacinação, do enfrentamento ao negacionismo científico e da adoção de medidas sanitárias baseadas em evidências. Em um dos períodos mais críticos da saúde pública brasileira, a entidade deu visibilidade ao protagonismo da Enfermagem no cuidado direto à população e denunciou, de forma sistemática, as condições precárias de trabalho, a sobrecarga física e emocional e o elevado número de adoecimentos e mortes entre profissionais que sustentaram o cuidado em todos os territórios do país.

Ao mesmo tempo, a ABEn intensificou sua incidência política em defesa de condições dignas de trabalho, compreendendo que cuidar da população exige, necessariamente, cuidar de quem cuida. Nesse contexto, a luta histórica pela valorização da Enfermagem ganhou novo fôlego, especialmente na mobilização em torno do Piso Salarial Nacional, uma reivindicação construída ao longo de décadas de organização coletiva. A conquista do Piso, em 2022, representa um marco civilizatório para a categoria e para o sistema de saúde brasileiro, resultado de uma articulação ampla que envolveu entidades da Enfermagem, movimentos sociais e parlamentares comprometidos com a justiça social. A ABEn teve papel ativo nesse processo, reafirmando que a valorização profissional é condição indispensável para a qualidade do cuidado e a sustentabilidade do SUS.

Outra bandeira histórica que permanece no centro da agenda da entidade é a luta pela jornada semanal de 30 horas, ainda não conquistada. Desde sua criação, a ABEn denuncia os impactos da jornada extenuante sobre a saúde física e mental das trabalhadoras e trabalhadores da Enfermagem, majoritariamente mulheres, e defende a redução da carga horária como estratégia de proteção à vida, qualificação do cuidado e reconhecimento social da profissão. A permanência dessa pauta revela que o centenário da ABEn não marca um encerramento, mas a continuidade de uma luta que atravessa gerações.

No campo da inovação, da memória e da produção de conhecimento, a ABEn segue ampliando suas formas de atuação. Como parte das comemorações do centenário, a entidade lançou o Memorial Casa ABEn, um museu virtual interativo no metaverso que preserva e difunde a história da Enfermagem brasileira por meio de tecnologias imersivas. Mais do que um acervo digital, a CasaABEn constitui-se como um espaço vivo de memória, identidade e formação/educação, conectando passado, presente e futuro da profissão. Ao valorizar trajetórias, símbolos, documentos e narrativas, o projeto reafirma a centralidade da memória como dimensão política e educativa da Enfermagem.

Complementarmente, a criação do Observatório Brasileiro de Enfermagem, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, inaugura uma nova etapa na produção e sistematização de informações estratégicas sobre a profissão. O Observatório nasce com o objetivo de monitorar o trabalho, a formação/educação e a produção científica da Enfermagem, transformando dados em conhecimento acessível à sociedade e aos formuladores de políticas públicas. Trata-se de um instrumento fundamental para dar visibilidade à maior força de trabalho da saúde no país e para fortalecer decisões baseadas em evidências, ética e compromisso social.

Ao completar cem anos, a ABEn reafirma sua identidade como entidade-mãe da Enfermagem brasileira: aquela que organiza, forma, regula, mobiliza e projeta a profissão para o futuro. Sua história demonstra que a Enfermagem se constrói na articulação entre ciência, trabalho, política e cuidado, e que a defesa da vida — em todas as suas dimensões — segue sendo o eixo estruturante de sua atuação. O centenário, assim, não é apenas celebração, mas reafirmação de um compromisso coletivo com a dignidade, a democracia, as soberanias, o SUS e com as próximas gerações da Enfermagem brasileira.