Painel debate formação, ciência e protagonismo da Enfermagem em imunizações

A necessidade de fortalecer a formação em imunização para acompanhar a evolução científica, tecnológica e epidemiológica marcou o painel interativo “Vacinas: passado, presente e futuro – diálogo com a formação e a prática”, realizado na tarde desta terça-feira (29), durante o 20º SENADEn (Seminário Nacional de Diretrizes para Educação em Enfermagem). O debate reuniu as professoras Ana Paula Sayuri Sato (USP), Ana Catarina de Melo Araújo (Programa Nacional de Imunizações/Ministério da Saúde) e Karlla Antonieta Amorim Caetano (UFG), com mediação da professora Sheila Araújo Teles (UFG).
Na abertura, Sheila ressaltou que a vacinação representa uma das maiores conquistas da saúde pública mundial, mas alertou para os desafios enfrentados diante da queda das coberturas vacinais e do crescimento da desinformação. Para ela, embora a Enfermagem ocupe historicamente um papel central nas campanhas e na gestão da imunização, esse protagonismo ainda não é refletido na formação profissional.
“A imunização só acontece porque existe uma equipe de Enfermagem organizando, gerenciando e vacinando. Mesmo assim, ainda formamos enfermeiros com pouca carga horária prática nessa área”, destacou.
O protagonismo histórico da Enfermagem na vacinação
A professora Ana Paula Sayuri Sato conduziu uma retrospectiva histórica da imunização no Brasil para demonstrar que a Enfermagem sempre esteve no centro das grandes transformações das políticas de vacinação.
Desde as campanhas de combate à varíola até a consolidação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), a categoria assumiu funções que ultrapassam a aplicação de vacinas, envolvendo planejamento, supervisão, organização das salas de vacinação, formação de equipes, vigilância epidemiológica e educação em saúde.
Ao revisitar diferentes décadas do PNI, Ana Paula mostrou que muitos desafios persistem, como a necessidade de qualificação permanente dos profissionais, investimentos em educação continuada e valorização da atuação da Enfermagem na imunização.
Ela também destacou o protagonismo da categoria durante a pandemia de Covid-19, quando enfermeiras(os) coordenaram a maior campanha de vacinação da história do país, mesmo diante da sobrecarga de trabalho e do crescimento do movimento antivacina.
Segundo a pesquisadora, o reconhecimento desse papel histórico ganhou um marco importante com a regulamentação da atuação da equipe de Enfermagem em imunização publicada pelo Conselho Federal de Enfermagem em 2025, reforçando que o trabalho da categoria vai muito além do ato de aplicar vacinas.
Para Ana Paula, reconhecer essa trajetória é essencial para compreender que a atuação da Enfermagem em imunização sempre esteve associada à gestão, à educação em saúde, ao planejamento e à vigilância epidemiológica — dimensões que permanecem fundamentais para enfrentar os desafios atuais da queda das coberturas vacinais e da hesitação diante das vacinas.

Um PNI mais tecnológico exige uma Enfermagem preparada para novos desafios
A coordenadora-Geral de Incorporação Científica e Imunização do Ministério da Saúde, Ana Catarina de Melo Araújo, apresentou a profunda transformação vivida pelo programa ao longo de seus 52 anos de existência. Segundo ela, o PNI passou de quatro imunobiológicos ofertados em sua criação para cerca de cinquenta atualmente, com mais de vinte vacinas disponíveis no calendário nacional, resultado de um processo permanente de incorporação de evidências científicas e diálogo com organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A palestrante destacou que a vacinação deixou de ser uma atividade baseada apenas na aplicação de imunizantes para incorporar novas plataformas tecnológicas, sistemas digitais de informação, inteligência epidemiológica e mecanismos cada vez mais sofisticados de monitoramento. Nesse contexto, o enfermeiro passa a exercer funções que envolvem ciência, gestão, comunicação e análise de dados.
Ela explicou que as novas tecnologias vacinais — como as vacinas de vetor viral e as vacinas genéticas — trouxeram benefícios importantes, especialmente em situações de emergência sanitária, mas também aumentaram a complexidade da organização dos serviços, exigindo maior domínio sobre conservação, cadeia de frio, transporte e rastreabilidade dos imunobiológicos.
Outro ponto de destaque foi a transformação digital do PNI. Hoje, os registros vacinais são individualizados e integrados a diferentes bases nacionais de dados, permitindo acompanhar informações como lote, fabricante e histórico de vacinação de cada usuário, entre outras informações. Ao mesmo tempo, essa evolução amplia a responsabilidade das equipes de Enfermagem, responsáveis por alimentar diversos sistemas de informação e garantir a qualidade dos registros utilizados para o monitoramento epidemiológico.
Ana Catarina também chamou atenção para o novo cenário epidemiológico enfrentado pelo país, marcado pelo envelhecimento populacional, pela mobilidade das pessoas, pela persistência das desigualdades de acesso e pelo avanço da hesitação vacinal. Para ela, reduzir esse fenômeno exige compreender que a recusa às vacinas não decorre apenas da desinformação, mas também de barreiras relacionadas ao acesso aos serviços e à organização da rede de atenção.

Nesse contexto, a infodemia — caracterizada pela circulação simultânea de grande volume de informações verdadeiras e falsas — tornou-se um dos principais desafios da imunização. Segundo a palestrante, a(o) profissional de Enfermagem disputa diariamente a atenção da população com algoritmos das redes sociais e conteúdos produzidos sem base científica.
“Hoje, a(o) enfermeira(o) precisa interpretar evidências, comunicar com clareza, combater a desinformação, liderar equipes, monitorar eventos adversos e planejar estratégias para ampliar a adesão da população à vacinação”, afirmou.
Ela ainda destacou avanços recentes do Brasil na recuperação das coberturas vacinais, especialmente na redução do número de crianças classificadas como “dose zero” — aquelas que nunca receberam nenhuma vacina. Segundo Ana Catarina, o país reduziu esse contingente de aproximadamente 250 mil para cerca de 50 mil crianças, resultado que demonstra a efetividade das estratégias adotadas, embora ainda represente um desafio permanente para o Sistema Único de Saúde.
Formação precisa acompanhar a evolução do processo de trabalho em imunizações
Encerrando o painel, Karlla Antonieta Amorim Caetano provocou uma reflexão sobre a formação dos futuros profissionais de Enfermagem. Segundo ela, a vacinação evoluiu profundamente nas últimas décadas, mas a formação no Brasil ainda apresenta grandes diferenças entre os mais de 70 cursos de graduação, especialmente quanto à carga horária prática e à experiência em salas de vacinação. “Estamos formando profissionais para o calendário vacinal de 1975 ou para o de 2026?”, questionou.
A pesquisadora destacou que cada transformação sanitária vivida pelo Brasil exigiu um novo perfil profissional, desde a criação do PNI até a pandemia de Covid-19. No entanto, ainda existem lacunas importantes na produção de conhecimento sobre como os cursos de Enfermagem preparam seus estudantes para atuar em imunização.
Entre as estratégias apontadas para fortalecer essa formação estão a ampliação dos cenários práticos, o uso de simulações, a participação em campanhas de vacinação, o enfrentamento da desinformação e a incorporação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais.
Karlla também apresentou a Rede Latino-Americana de Enfermagem em Vacinação (REVELA), da qual a ABEn faz parte, que desenvolverá o projeto FORMAIMUNE, iniciativa voltada a diagnosticar como a imunização é ensinada nos cursos de Enfermagem do Brasil e da América Latina e produzir recomendações para qualificar essa formação.
Ao encerrar sua apresentação, reforçou que preservar o protagonismo histórico da Enfermagem nas imunizações depende, necessariamente, da qualidade da formação das novas gerações. “O futuro da vacinação começa na formação. Precisamos garantir que a Enfermagem continue ocupando o espaço que historicamente construiu na imunização brasileira.”


