Formação em Enfermagem precisa unir ciência, ética, inovação e compromisso com o SUS

  • 30 de julho de 2026
  • Livia

Foto: Carlos Nunes

A construção de uma Enfermagem capaz de responder aos desafios de um mundo marcado por rápidas transformações sociais, tecnológicas, ambientais e sanitárias exige uma formação que articule ciência, ética, inovação, responsabilidade social e compromisso permanente com o Sistema Único de Saúde (SUS), defende professora doutora e reitora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Girlene Alves da Silva, durante a conferência “Formação, inovação e gestão educacional para o cuidado seguro, sustentável e transformador”, que ocorreu dia 29 de julho durante a programação do 20º Seminário Nacional de Diretrizes para a Educação em Enfermagem (20º SENADEn) e do 17º Simpósio Nacional em Teorias, Terminologias e Processo de Enfermagem (17º SINADEn).

A atividade foi moderada pela presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), Jacinta Sena, que apresentou a trajetória acadêmica e profissional da conferencista. Enfermeira, professora titular da Faculdade de Enfermagem da UFJF e atual reitora da instituição, Girlene possui uma carreira consolidada na formação de profissionais de saúde, na pesquisa em políticas públicas, doenças infecciosas, teorias de Enfermagem e educação em saúde.

Ao iniciar sua apresentação, Girlene explicou que estruturou sua reflexão a partir de cinco grandes referências: as novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Enfermagem (DCNs/Enf), as bases teóricas da profissão, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 da Organização das Nações Unidas (ONU), a Política Nacional de Qualidade e Segurança e o próprio Sistema Único de Saúde.

Segundo ela, essas referências conduzem uma questão central: que tipo de profissional e que sistema de saúde a formação em Enfermagem pretende construir para o futuro?

Formação para um mundo em transformação

Ao propor reflexões sobre formação, inovação, gestão educacional, cuidado seguro, sustentabilidade e transformação social, Girlene convidou o público a pensar se a educação em Enfermagem está preparando profissionais capazes de atuar em um mundo cada vez mais desigual, tecnologicamente complexo e ambientalmente ameaçado.

Ela destacou que o cuidado também precisa se transformar à medida que a sociedade muda e lembrou que questões ambientais possuem impacto direto sobre a saúde da população. Como exemplo, citou situações cotidianas, como o descarte inadequado de resíduos, que desencadeiam uma cadeia de consequências ambientais e sanitárias.

Nesse contexto, ressaltou ainda a necessidade de incorporar ao debate da formação temas como o enfrentamento das diferentes formas de violência presentes no cuidado em saúde, ampliando a compreensão sobre os determinantes sociais que atravessam a prática profissional.

SUS como eixo estruturante da formação

Durante a conferência, Girlene reafirmou que o fortalecimento do SUS deve permanecer como eixo central da formação dos futuros enfermeiros. Ela lembrou que mais de 70% da população brasileira depende exclusivamente do sistema público de saúde e defendeu que os princípios do SUS precisam estar presentes desde o início da graduação, orientando tanto a construção do conhecimento quanto as experiências práticas dos estudantes.

Ao abordar as novas DCNs/Enf, destacou avanços importantes, especialmente a valorização da formação presencial, da inserção precoce dos estudantes nos serviços de saúde, da ampliação da carga horária dos estágios curriculares e da responsabilidade institucional das escolas na qualidade da formação.

Na avaliação da professora, as novas DCNs/Enf representam também um desafio para os próprios docentes, que precisarão rever práticas pedagógicas e sair de suas zonas de conforto para responder às novas demandas da sociedade. “A formação não deve produzir competição entre instituições, mas garantir qualidade. Mais importante do que saber onde alguém estudou é compreender o que efetivamente aprendeu”, sintetizou.

Tecnologia precisa ampliar o cuidado, não substituir o humano

Outro eixo central da conferência foi a inovação tecnológica. Girlene reconheceu que ferramentas digitais, inteligência artificial e novas tecnologias já fazem parte da realidade da saúde e da educação, mas alertou para o risco de substituir processos fundamentais da formação, como a dúvida, o pensamento crítico, a reflexão e a construção coletiva do conhecimento.

Segundo ela, a tecnologia pode ampliar o acesso aos serviços, integrar informações, apoiar decisões clínicas, fortalecer a comunicação entre equipes e permitir a identificação precoce de riscos, mas jamais poderá substituir elementos essenciais do cuidado, como a escuta qualificada, o vínculo, a presença, o julgamento clínico diante das singularidades e a deliberação ética.

“A ética é aquilo que dá estética ao cuidado”, afirmou, ao defender que inovação tecnológica e humanização precisam caminhar juntas. Para a conferencista, a Enfermagem deve participar ativamente da concepção, seleção e implementação das novas tecnologias em saúde, deixando de ocupar apenas o lugar de usuária dessas ferramentas para assumir protagonismo em seu desenvolvimento.

Resiliência como competência da formação

Ao discutir a organização dos sistemas de saúde, Girlene apresentou o conceito de resiliência aplicado à gestão do cuidado. Segundo ela, formar profissionais resilientes significa prepará-los para antecipar riscos, planejar respostas, manter serviços essenciais durante crises, adaptar processos e aprender continuamente com as experiências vividas.

Entre as capacidades necessárias para sustentar essa resiliência estão a boa governança, inteligência organizacional, proteção da força de trabalho, infraestrutura adequada, redes colaborativas e fortalecimento das comunidades. A pandemia de Covid-19 foi utilizada como exemplo da capacidade da Enfermagem de responder rapidamente a situações extremas, reafirmando o protagonismo da profissão na organização dos sistemas de saúde.

Atenção Primária, extensão e pesquisa fortalecem a formação

Ao defender uma formação socialmente comprometida, Girlene destacou o papel estratégico da Atenção Primária à Saúde (APS), afirmando que municípios com uma APS fortalecida apresentam melhores indicadores de saúde.

Ela também enfatizou a importância da curricularização da extensão universitária como mecanismo de aproximação permanente entre universidades e necessidades concretas da população. Outro ponto ressaltado foi a necessidade de ampliar ambientes de simulação clínica, inovação e aprendizagem segura, permitindo que estudantes desenvolvam competências antes da atuação direta junto aos usuários.

A pesquisadora lembrou ainda que cerca de 90% da produção científica brasileira é realizada por universidades públicas, reforçando a importância do financiamento permanente dessas instituições para garantir inovação, produção de evidências e fortalecimento do SUS.

Formação política também faz parte da formação profissional

Durante o debate com o público, uma das questões levantadas foi a necessidade de fortalecer a formação política dos estudantes de Enfermagem. A professora aposentada Moemia Gomes, do Rio Grande do Norte, provocou uma reflexão sobre o compromisso da profissão com a formação política e a defesa da vida, das populações vulnerabilizadas e do SUS diante das desigualdades sociais, defendendo que esses temas precisam atravessar os currículos universitários.

Ao responder, Girlene destacou que formação política não significa filiação partidária, mas compreensão do funcionamento das políticas públicas, das instâncias de participação social e do próprio sistema de saúde. Ela chamou atenção para o fato de muitos estudantes concluírem a graduação sem conhecer marcos legais fundamentais, como a Lei nº 8.080/1990, que organiza o SUS, ou sem compreender o papel das conferências de saúde e dos espaços democráticos de participação social.

A conferencista incentivou docentes e estudantes a levarem suas pesquisas, dissertações e teses para os debates das conferências municipais de saúde, aproximando ainda mais a produção científica das decisões que impactam a vida da população.

Educar para cuidar e transformar

Na conclusão da conferência, Girlene reafirmou que educação, cuidado, sustentabilidade e responsabilidade social constituem dimensões inseparáveis da formação em Enfermagem. Para ela, construir um futuro habitável significa formar profissionais capazes de integrar ciência, ética, solidariedade e compromisso público, sempre tendo o cuidado como expressão da defesa da vida.

“A educação precisa articular teoria e prática, responsabilidade social e sustentabilidade. O futuro será produzido pela nossa capacidade coletiva de unir ciência, ética, solidariedade e compromisso público. A Enfermagem educa para cuidar e cuida para transformar”, concluiu.

A conferência abriu o segundo dia da programação científica do 20º SENADEn e do 17º SINADEn, reafirmando o compromisso histórico da ABEn com uma formação crítica, inovadora e comprometida com o fortalecimento do SUS e com a transformação social por meio da Enfermagem.