A Enfermagem na prevenção da gravidez na adolescência: cuidado, direitos e responsabilização dos homens

A prevenção da gravidez na adolescência é um dos grandes desafios da saúde pública brasileira e exige ações contínuas, baseadas em evidências científicas, direitos humanos e compromisso ético com a vida. Dados recentes divulgados pelo Ministério da Saúde mostram a dimensão do problema: em 2023, o Brasil registrou 289.093 partos de adolescentes de 15 a 19 anos, e 13.932 partos de meninas de 10 a 14 anos. Esses números não podem ser naturalizados. Cada gravidez na adolescência traz impactos profundos na vida dessas jovens, especialmente quando ocorre de maneira não-intencional ou em contextos de violência.
A Enfermagem ocupa um lugar estratégico para contribuir para a prevenção da gravidez na adolescência, especialmente na Atenção Básica, por sua presença cotidiana nos territórios, pela escuta qualificada e pela capacidade de dialogar com adolescentes, famílias e comunidades. Para meninas e adolescentes, a maternidade precoce frequentemente interrompe trajetórias escolares, limita oportunidades profissionais e compromete projetos de vida. A evasão escolar, a dependência econômica, a sobrecarga emocional e o risco aumentado de violência e pobreza fazem parte de um ciclo que se retroalimenta. A prevenção da gravidez na adolescência passa pelo direito à educação, à autonomia, ao futuro e à dignidade.
Cuidado e diálogo sobre direitos
Os serviços de saúde são, muitas vezes, a principal, ou única, porta de entrada para adolescentes gravidas e/ou em situação de violência sexual. Por isso, cabe à Enfermagem acolher sem julgamentos, buscar a integralidade do cuidado. Especialmente na Atenção Básica, a Enfermagem tem a oportunidade de atuar de forma ampliada, indo além do atendimento individual – as visitas domiciliares, os grupos educativos, as ações em escolas e articulação com outros setores permitem conversar com as famílias, desconstruir naturalizações e promover uma cultura de responsabilidade, cuidado e igualdade entre gêneros.

Prevenir a gravidez na adolescência exige ações intersetoriais, envolvendo saúde, educação, assistência social – e também cultura, esporte e lazer. Exige também educação permanente das equipes de saúde, para garantir práticas atualizadas, humanizadas e comprometidas com os direitos das crianças e adolescentes. A Enfermagem tem um papel fundamental na educação em saúde ao dialogar com meninas e adolescentes sobre educação sexual, consentimento, tipos de violência e abusos, métodos contraceptivos, projeto de vida e autocuidado, sempre em uma abordagem acolhedora, livre de julgamentos e estigmas. Informar não é estimular a sexualidade precoce — é proteger vidas e garantir direitos.
Responsabilização dos homens
Historicamente, a gravidez na adolescência tem sido tratada como um “problema das meninas”. No entanto, nenhuma criança ou adolescente engravida sozinha. A prevenção passa, necessariamente, pela responsabilização dos homens – adultos e jovens – por suas condutas, escolhas e deveres. É fundamental lembrar que a relação sexual com meninas menores de 14 anos é crime, tipificada como estupro de vulnerável.
A Enfermagem pode contribuir muito ao ampliar, respeitando o codigo de ética profissional, o diálogo com homens e jovens do sexo masculino, abordando, por exemplo, questões de responsabilidade, saúde e cuidado com as crianças que nascem e com as mães. Além disso, é dever de toda(o) profissional de saúde comunicar situações de violência contra crianças e adolescentes às autoridades competentes, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. A notificação não significa denunciar ou expor a vítima, mas protegê-la e interromper ciclos de violência.
A Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência é um momento estratégico para reafirmar o compromisso com o cuidado e com os direitos de meninas, adolescentes e mulheres. Ao atuar de forma crítica, ética e engajada, a Enfermagem pode contribuir diretamente para que alcancemos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável 3 e 5 Saúde e Bem estar, e Igualdade de Gênero. Precisamos defender meninas, adolescentes e mulheres para defender o futuro, responsabilizar os homens para enfrentar a violência e fortalecer a Enfermagem para garantir o cuidado de todos(as) nós.


