Alterações da NR-1 reforçam papel da gestão em Enfermagem na prevenção dos riscos psicossociais

Estamos no Setembro Amarelo, período dedicado à conscientização sobre a saúde mental e à prevenção do suicídio. Por isso, é cada vez mais importante falar sobre as alterações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) que entraram em vigor em maio deste ano. A NR 1 é a regra básica do Ministério do Trabalho e Emprego que define as diretrizes gerais de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil. As alterações se referem à forma como os riscos psicossociais devem ser compreendidos e enfrentados nos ambientes de trabalho.
A atualização da NR-1 amplia o olhar sobre o gerenciamento dos riscos ocupacionais ao incluir de forma explícita os riscos psicossociais entre os aspectos que devem ser considerados pelas organizações. Para os serviços de saúde, e particularmente para a Enfermagem, essa mudança tem grande importância, diante da natureza do trabalho e da exposição cotidiana a situações de sofrimento, estresse e elevada carga emocional.
Para a Enfermagem, os aspectos que demandam atenção estão a sobrecarga de tarefas, a escassez de recursos humanos, a insegurança no ambiente de trabalho, os conflitos interpessoais, o assédio moral, a violência física e psicológica e a falta de reconhecimento e suporte emocional. De acordo com a atualização da NR-1, depois de identificar se esses fatores fazem parte do cotidiano de suas equipes, os(as) gestores(as) precisam construir estratégias capazes de preveni-los ou reduzir seus impactos.
Na prática, isso representa uma mudança importante na gestão dos serviços de Enfermagem: a saúde mental precisa deixar de ser tratada apenas como uma questão individual e passar a integrar o planejamento e a organização do trabalho. Essa é uma das reflexões apresentadas no artigo “O impacto das alterações da NR-1 na gestão em enfermagem: uma nova abordagem para os riscos psicossociais na enfermagem”, de autoria dos pesquisadores Sérgio Valverde Marques dos Santos, Zélia Marilda Rodrigues Resck e Vitória Cristina Silva, publicado em 22 de agosto de 2025 na Revista Brasileira de Enfermagem (Reben).
O gestor de Enfermagem como agente de uma cultura de cuidado
Segundo o artigo, é fundamental fortalecer a comunicação e a colaboração entre (as)os profissionais. Uma equipe que encontra espaços seguros para dialogar sobre dificuldades, conflitos e necessidades pode reduzir sentimentos de isolamento e estresse e construir coletivamente estratégias para lidar com os desafios do trabalho.
Nesse processo, o papel do gestor de Enfermagem ganha ainda mais relevância. Para os autores, a implementação das mudanças previstas na NR-1 exige profissionais capazes de articular conhecimento técnico, liderança, comunicação, gestão de conflitos e resolução de problemas. O(a) gestor(a) precisa atuar como um(a) facilitador(a), garantindo condições e recursos para que as ações de prevenção sejam efetivamente desenvolvidas, além de promover a sensibilização e a capacitação das equipes sobre os riscos psicossociais.
Essa atuação também pressupõe uma mudança cultural. Criar ambientes nos quais as(os) profissionais se sintam seguras(os) para expressar suas preocupações, pedir ajuda e falar sobre seu sofrimento é uma das estratégias fundamentais para a promoção da saúde mental e para a prevenção do burnout e de outros agravos relacionados ao estresse ocupacional. Nesse sentido, a gestão tem a responsabilidade de contribuir para transformar as relações e as condições de trabalho, reconhecendo que o bem-estar das(os) profissionais está diretamente relacionado à qualidade e à segurança do cuidado prestado à população.
Saúde mental também é uma questão de condições de trabalho
As alterações da NR-1 colocam em evidência uma questão fundamental para a Enfermagem: não é possível falar em cuidado de qualidade sem considerar as condições de trabalho de quem cuida. É importante destacar que a saúde mental das(os) profissionais não depende exclusivamente da capacidade individual de lidar com situações difíceis. Ela também é influenciada pela forma como o trabalho é organizado, pelo dimensionamento das equipes, pelas relações profissionais, pelo reconhecimento, pela segurança e pelo suporte oferecido pelas instituições.
A implementação das alterações da NR-1 representa, portanto, uma oportunidade para que a gestão em Enfermagem avance de uma perspectiva centrada apenas na resposta aos problemas para uma atuação preventiva, integrada e humanizada. Ao incorporar os riscos psicossociais à gestão cotidiana, as instituições podem contribuir para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, seguros e sustentáveis.
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