Processo de Enfermagem, saúde digital e inteligência artificial fortalecem o cuidado em saúde e ampliam a visibilidade da Enfermagem

A transformação digital da saúde e o avanço da inteligência artificial representam uma oportunidade para fortalecer o Processo de Enfermagem, ampliar a segurança do cuidado e dar maior visibilidade ao trabalho desenvolvido pela Enfermagem, destacam especialistas no 17º SINADEn (Simpósio Nacional em Teorias, Terminologias e Processo de Enfermagem). Mas esse avanço só produzirá resultados se as tecnologias forem construídas a partir das necessidades da prática profissional e mantiverem o cuidado humano no centro da assistência. Essa foi a principal reflexão da Mesa “Processo de Enfermagem, saúde digital e inteligência artificial para um cuidado seguro, sustentável e transformador”, realizada na manhã desta quarta-feira (29), durante a programação do 17º SINADEn.
Moderada pela professora Amália de Fátima Lucena (UFRGS/ABEn-RS), a atividade reuniu a professora Isabelle Cristinne Pinto Costa, da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), responsável pelo desenvolvimento do SisAPEC – Sistema de Aplicação do Processo de Enfermagem no Cuidado, e a professora Tamara Gonçalves Rezende Macieira, da Universidade da Flórida (EUA), pesquisadora em informática em Enfermagem, ciência de dados e inteligência artificial aplicada à saúde.
Embora apresentassem experiências distintas, as duas pesquisadoras convergiram em uma mesma defesa: a tecnologia deve reduzir a burocracia, apoiar o raciocínio clínico e devolver às enfermeiras e aos enfermeiros naquilo que nenhuma ferramenta consegue substituir — o tempo dedicado às pessoas.
Tecnologia desenvolvida pela Enfermagem para fortalecer o Processo de Enfermagem
A primeira apresentação foi conduzida por Isabelle Cristinne Pinto Costa, que compartilhou a trajetória de desenvolvimento do SisAPEC, sistema criado para apoiar a aplicação do Processo de Enfermagem e facilitar sua documentação nos serviços de saúde.
Segundo a pesquisadora, a iniciativa surgiu de uma inquietação vivenciada durante atividades de ensino e extensão em hospitais e na Atenção Primária à Saúde. Em contato com profissionais e estudantes, foi observado que a sobrecarga de trabalho e o excesso de atividades burocráticas frequentemente impediam a realização e, principalmente, o registro adequado das cinco etapas do Processo de Enfermagem.
Para Isabelle, essa realidade produz consequências que vão muito além da documentação. Sem registros estruturados, a Enfermagem perde capacidade de demonstrar seus resultados, produzir indicadores, gerar evidências científicas e alimentar sistemas inteligentes capazes de apoiar decisões clínicas. “Sem dados, não há visibilidade para a profissão”, destacou.
Foi nesse contexto que nasceu o SisAPEC, desenvolvido por enfermeiros em parceria com pesquisadores da Ciência da Computação para organizar digitalmente o Processo de Enfermagem, apoiar o raciocínio clínico e integrar diferentes sistemas de informação em saúde.
A plataforma já está em implantação em unidades da Estratégia Saúde da Família de Alfenas (MG) e foi desenvolvida com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Ao apresentar a experiência, Isabelle ressaltou que tecnologias em saúde precisam ser construídas com a participação de quem está na assistência. “Foi criado por enfermeiros, para enfermeiros”, afirmou, ao defender que o sucesso de uma ferramenta depende da escuta permanente dos usuários e da capacidade de responder às demandas reais do cotidiano dos serviços.
A pesquisadora também chamou atenção para os desafios da saúde digital no Brasil, entre eles a infraestrutura ainda insuficiente em muitos serviços, a fragmentação dos sistemas de informação, a necessidade de fortalecer a governança de dados e a formação dos profissionais para utilização dessas tecnologias. Segundo ela, a inteligência artificial somente produzirá resultados confiáveis se houver dados estruturados e registros qualificados do Processo de Enfermagem.
Inteligência artificial deve devolver tempo para o cuidado
Na segunda apresentação da mesa, Tamara Gonçalves Rezende Macieira trouxe a perspectiva da Universidade da Flórida sobre documentação clínica, prontuários eletrônicos e inteligência artificial aplicada à Enfermagem.
Ela contou que seu interesse pela área nasceu da própria prática profissional, quando percebia que os prontuários eletrônicos funcionavam apenas como repositórios de informações, sem transformar os registros produzidos pela Enfermagem em conhecimento capaz de qualificar o cuidado.
Segundo a pesquisadora, embora os sistemas de saúde dos Estados Unidos e do Brasil sejam bastante diferentes, os desafios enfrentados pelos enfermeiros são muito semelhantes. Em ambos os países, os profissionais realizam o Processo de Enfermagem durante a assistência, mas frequentemente não conseguem documentá-lo de forma adequada porque os sistemas eletrônicos exigem excesso de cliques, apresentam informações repetitivas e consomem tempo precioso do cuidado direto.
Tamara apresentou estudos que mostram que enfermeiras e enfermeiros podem dedicar cerca de um terço de um plantão de 12 horas apenas à documentação em prontuários eletrônicos, muitas vezes registrando as mesmas informações em diferentes telas. Esse modelo, explicou, aumenta a carga cognitiva, favorece a exaustão profissional e reduz o tempo disponível para a assistência.
Para ela, esse é justamente o espaço em que a inteligência artificial pode produzir mudanças significativas. Ao automatizar tarefas repetitivas, organizar informações e apoiar o raciocínio clínico, essas ferramentas permitem que os profissionais dediquem mais tempo ao contato com os pacientes e às decisões que exigem julgamento humano.
“A inteligência artificial pode tornar o cuidado em Enfermagem mais humano justamente porque nos afasta das tarefas burocráticas e nos aproxima das pessoas”, afirmou.
Tamara também reforçou que a documentação qualificada é essencial para representar o Processo de Enfermagem, fortalecer a comunicação entre equipes, produzir indicadores assistenciais, subsidiar pesquisas e alimentar modelos de inteligência artificial capazes de apoiar a tomada de decisão clínica.
Tecnologia a serviço do cuidado
Encerrando a mesa, as palestrantes reforçaram que a transformação digital da Enfermagem depende da atuação conjunta entre universidades, serviços de saúde, profissionais da assistência e pesquisadores. Para Isabelle, é fundamental fortalecer redes de colaboração e compartilhar experiências para acelerar o desenvolvimento de soluções construídas pela própria Enfermagem.
“A Enfermagem precisa compartilhar conhecimento e fortalecer parcerias. Chega de cada um produzir no seu quadrado”, defendeu.
Ao reunir experiências brasileiras e internacionais, a Mesa 1 do 17º SINADEn demonstrou que o futuro da saúde digital não está na substituição do trabalho humano, mas no uso inteligente das tecnologias para fortalecer o Processo de Enfermagem, qualificar a assistência e ampliar a contribuição da profissão para os sistemas de saúde.


