El Niño 2026–2027: Em Nota Técnica, ABEn alerta para impactos na saúde e destaca papel estratégico da Enfermagem diante das mudanças climáticas

  • 21 de setembro de 2026
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A intensificação dos eventos climáticos extremos representa um desafio crescente para a saúde pública brasileira. Diante desse cenário, a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), por meio de um grupo de trabalho, elaborou uma Nota Técnica para orientar profissionais, gestores e serviços de saúde sobre prevenção, preparação e cuidado diante dos possíveis impactos do El Niño 2026–2027 e reforça a importância de respostas permanentes do SUS.

Leia a Nota Técnica na íntegra:
Nota Tecnica GT Clima_set 2026

Embora o documento tenha como foco um fenômeno climático específico, seus alertas apontam para uma realidade que ultrapassa sua duração. O El Niño é um fenômeno natural, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial e por alterações na circulação atmosférica. Já o superaquecimento global provocado pela ação humana modifica as condições climáticas do planeta e contribui para intensificar os riscos associados a eventos extremos.

Os desafios apresentados na Nota Técnica, portanto, não se encerram com o fim do El Niño. Calor extremo, secas, chuvas intensas e outros eventos climáticos continuarão a exigir respostas dos serviços de saúde e da sociedade. As orientações do documento podem ser consideradas também como referências para a preparação permanente diante das mudanças climáticas.

A iniciativa reafirma o compromisso histórico da ABEn com as determinações sociais da saúde, reconhecendo que as condições ambientais, sociais e econômicas influenciam diretamente a saúde da população, a infraestrutura dos serviços e a prática social da Enfermagem. O Grupo de Trabalho teve coordenação de Flávia Alves Amorim Souza Sales (ABEn GO; PUC/GO) e coordenação adjunta de Aline Macêdo de Queiroz (ABEn Nacional; UFPA), e participação de Daniel Amorim Alves Borges (CEMPA-Cerrado/UFG), Meillyne Alves dos Reis (ABEn/GO; UEG),Iel Marciano de Moraes Filho (Unievangélica/GO), Ítalo Arão Pereira Ribeiro (UFMS – Campus Coxim), Inara Mariela da Silva Cavalcante (ABEn Nacional; UFPA).

El Niño em fortalecimento: atenção aos cenários climáticos

A Nota Técnica destaca que entidades internacionais de pesquisa sobre o clima divulgaram que o El Niño encontra-se em processo de fortalecimento. Em julho de 2026, foram registradas anomalias de temperatura da superfície do mar de +1,4 °C, acompanhadas por alterações expressivas nas temperaturas subsuperficiais do oceano. Para o trimestre de outubro a dezembro de 2026, as projeções indicavam possibilidade de intensificação significativa do fenômeno.

No Brasil, os efeitos podem variar entre as regiões, conforme a interação do El Niño com outros sistemas atmosféricos e as condições ambientais de cada território. O documento da ABEn afirma que as repercussões dependem não apenas das condições climáticas, mas também da infraestrutura local, da capacidade de resposta dos serviços e das vulnerabilidades presentes em cada território.

Os cenários regionais, seus possíveis efeitos sobre a saúde e as implicações para a vigilância e o cuidado estão detalhados no quadro a seguir e na Nota Técnica completa, disponibilizada em anexo.

Mudanças climáticas e saúde: riscos que exigem preparação permanente

Os eventos climáticos extremos podem produzir impactos imediatos e consequências que se prolongam no tempo. A Nota Técnica da ABEn destaca diferentes riscos prioritários para a saúde pública, que exigem atenção integrada da vigilância, dos serviços de saúde e das equipes de Enfermagem: calor extremo e estresse térmico; seca, escassez hídrica e baixa umidade do ar; queimadas, incêndios florestais e exposição à fumaça; chuvas intensas, inundações e desastres associados; doenças transmissíveis; impactos sobre a saúde mental e insegurança alimentar e nutricional. Esses riscos e suas repercussões para a saúde, a vigilância e o cuidado estão descritos de forma detalhada na Nota Técnica da ABEn, que integra esta matéria.

Racismo ambiental: populações mais vulnerabilizadas enfrentam maiores riscos

Os efeitos das mudanças climáticas não atingem todas as pessoas da mesma maneira. Populações que vivem em territórios socialmente vulnerabilizados, com menor acesso a recursos, infraestrutura e serviços, tendem a enfrentar maiores dificuldades para se proteger e se adaptar aos eventos extremos.

Essa distribuição desigual dos riscos e danos socioambientais está diretamente relacionada ao racismo ambiental. Entre as populações que demandam atenção estão povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos; moradores de periferias, favelas, ocupações e terrenos contaminados; comunidades atingidas por acidentes ambientais; moradores do entorno de lixões; marisqueiras, pescadores e pescadoras; catadores de materiais recicláveis; agricultores familiares e trabalhadores rurais sem-terra.

Crianças, pessoas idosas, gestantes, pessoas com deficiência e pessoas com doenças crônicas ou dependentes de medicamentos também podem apresentar maior suscetibilidade aos efeitos dos eventos climáticos, especialmente quando há interrupção dos serviços, deslocamentos ou dificuldades de acesso a cuidados contínuos.

Reconhecer essas desigualdades é essencial para organizar respostas que considerem as necessidades específicas de cada população e garantam proteção, equidade e continuidade do cuidado.

Enfermagem nos territórios: cuidado, vigilância e prevenção

Diante desse cenário, a Enfermagem assume papel estratégico na preparação e na resposta aos impactos climáticos sobre a saúde, especialmente por sua presença nos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) e sua proximidade com indivíduos, famílias e comunidades.

O acompanhamento contínuo dos territórios permite identificar riscos ambientais, reconhecer situações de vulnerabilidade e planejar intervenções oportunas, de acordo com as necessidades de cada população. Esse trabalho inclui identificar famílias que vivem em encostas sujeitas a deslizamentos, comunidades ribeirinhas expostas a inundações e populações que habitam áreas descampadas ou pouco arborizadas, mais vulneráveis ao calor extremo, além de outras situações específicas de cada território.

A atuação da Enfermagem também contribui para traduzir informações técnico-científicas em orientações acessíveis e culturalmente adequadas, valorizando os saberes, os modos de vida e as práticas de conservação ambiental desenvolvidas pelas comunidades.

Essa proximidade fortalece as ações de prevenção, educação em saúde, vigilância e cuidado, contribuindo para reduzir agravos relacionados à degradação ambiental e ampliar a capacidade de resposta dos serviços.

Processo de Enfermagem e formação para os desafios socioambientais

A Nota Técnica destaca a Resolução Cofen nº 736/2024, que dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todo contexto socioambiental onde ocorre o cuidado.

Essa perspectiva reforça a importância de considerar, na avaliação, no diagnóstico, no planejamento, na implementação e na evolução do cuidado, não apenas as necessidades individuais, mas também as condições ambientais, sociais e territoriais que interferem no processo saúde-doença.

A formação profissional também tem papel fundamental. As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem de 2026 fortalecem a articulação da formação com as necessidades de saúde da população e os princípios e diretrizes do SUS, incluindo a integração entre ensino, serviço e comunidade.

A Integração Ensino-Serviço-Comunidade (IESC) aproxima estudantes das realidades territoriais e contribui para o desenvolvimento de capacidades para reconhecer e responder às necessidades de saúde relacionadas às transformações socioambientais.

Esse processo deve ser acompanhado pela educação permanente em saúde, fundamental para qualificar profissionais que já atuam nas Redes de Atenção à Saúde. Compreender o território como espaço dinâmico permite identificar precocemente riscos, planejar o cuidado e organizar respostas diante do El Niño e de outros eventos climáticos.

ABEn reforça a importância de uma resposta permanente do SUS

Diante dos cenários apresentados, a ABEn reafirma a necessidade de fortalecer a qualificação da Enfermagem para atuar frente aos efeitos das mudanças climáticas e dos eventos extremos sobre a saúde.

A resposta deve articular cuidado, vigilância, educação, gestão, formação e participação social, integrada às ações do Sistema Único de Saúde e orientada pelas necessidades dos territórios, pela equidade, integralidade, inclusão, interculturalidade e proteção das populações.

A preparação para o El Niño 2026–2027 faz parte de um desafio mais amplo: desenvolver capacidades permanentes para prevenir agravos, proteger a população, responder às emergências e garantir a continuidade do cuidado em um contexto de mudanças ambientais.

Ao elaborar a Nota Técnica, a ABEn reforça o reconhecimento da Enfermagem como força estratégica na preparação, na resposta e na continuidade do cuidado diante das questões ambientais, para além das situações emergenciais.

Cuidar da saúde diante das mudanças climáticas exige olhar para além da emergência: significa conhecer os territórios, reconhecer desigualdades, fortalecer o SUS e construir respostas capazes de proteger a vida no presente e no futuro.